E o mastro da nossa bandeira se enterrar no chão, eu vou poder pegar em sua mão, falar de coisas que eu não disse ainda não. Coisas do coração...
Há 21 anos atrás, perdiamos nosso querido amado e odiado Raul Seixas. Amado por mim, por várias pessoas que conheço e odiado também por várias pessoas que conheço, cada um por seus motivos, cada um por suas lembranças. Eu estou do lado dos amantes de Raul. Cresci ouvindo sua música, sua crítica, seus anseios, suas bebedeiras, suas mulherices, seus erros e também seus acertos. Claro que eu era uma criança quando ele morreu, mas meu pai tinha uma fita dele, que ele gravou dos discos do meu avô e ficavámos ouvindo loucamente durante a propaganda eleitoral, que antigamente durava cerca de 1 hora na tv, logo dava tempo de sobra para fazermos dezenas de coisas... Meus pais jogavam dominó ouvindo Raul Seixas e Luiz Gonzaga e eu ficava ali, pequenina dançando e cantando as canções.
Todos anos temos a famosa passeata do raul, que começa as 18 lá na frente do teatro municipal aqui em São Paulo e a passeata sobe, em meio as músicas no nosso querido até a praça da Sé, onde canta-se mais ainda, bebe-se mais ainda e temos a chance de rever alguns amigos, já que, nesse mundo mixirica, os povo roqueiro dessa cidade sempre se conhece e sempre se encontra. Esse ano não pude comparecer, tive alguns problemas de ordem familiar, estava aqui olhando o relógio e cheia de pesares, mas, ano que vem tem mais... Tá aí um encontro que todo roqueiro deveria ir pelo menos uma vez na vida. Aliás, acredito que será uma coisa que irá se perder quando o último fã de Raul morrer... Às vezes acho que a música morreu, não temos mais os poetas de antes, o rock doido de antes... Por isso é bom celebrar, para lembrar que, pelo menos o que temos lá atrás nos serviu de algo.
Raul nasceu na Bahia em 1945 e morreu em São Paulo em 1989. Ele viu muita coisa acontecer nesse país abençoado por Deus, viveu a ditadura, viveu a liberação sexual, o rock abrindo caminhos no nosso país, a desconstrução de muitas coisas e valores que se perderam. Teve sua época de acreditar em ovnis, o que lhe trouxe a amizade com Paulo Coelho, seu amor por Elvis, seus altos e seus baixos... Como todos nós...
Somos a resposta exata do que a gente perguntou, entregues num abraço que sufoca o próprio amor, cada um de nós é o resultado da união de duas mãos coladas numa mesma oração... Coisas do coração... Coisas do coração...

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