"Sou como você me vê... Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania; depende de quando e como você me vê passar!" (Clarice Lispector)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

The Smiths - There is a light that never goes out

Uma das músicas que mais amo na vida...

domingo, 29 de agosto de 2010

A Origem

Meu pai, que filme complexo. Ontem fui ao cinema vê-lo, maravilhoso, quem gosta de Matrix vai amar esse filme. Ele é totalmente Freud e seu inconsciente. Fiquei pensando em como eles conseguiram entrar tão profundamente dentro de suas mentes, entrar dentro de sonhos, o legal seria se pudesses mesmo poder arquitetar de um tudo numa realidade paralela, sair um pouco desse mundo doido e ficar um tempo num mundo mais a nossa cara. O filme é muito bacana, é preciso prestar bastante atenção aos detalhes, já que é um sonho dentro de outro sonho, dentro de outro sonho e por aí vai. Uma coisa que me deixou curiosa é que a personagem Mal foi interpretada pela atriz Marion Cotillard, que também interpretou Piaf, no filme de 2007 e a música quer toca no filme para que eles acordem é exatamente Non, Je Ne Regrette Rien da Piaf, pode ser viagem minha e não ter nada a ver, mas achei engraçado... Putz, só eu mesmo para pensar essas coisas... 
O final é extremamente inteligente, ele nos deixa margem para diversas interpretações, se o filme inteiro não foi só um sonho, se ele voltou ou não para a realidade, quando o filme acabou as pessoas começaram gritar no cinema com raiva desse fim surpreendente, que dá a margem para diversas discussões e finais. A questão de comandar o cérebro alheio, de entrar no subconsciente das pessoas e descobrir tudo o que se passa na mente é algo extremamente perigoso, fascinante, mas do mal.
Para variar, tudo me leva a 1984, com sua forma de manipular a história e a mente das pessoas. a propagando faz isso com a gente né? Eu sempre tenho a impressão de que há algo de errado no mundo, mas todo mundo acha que tô viajando... rs O filme me levou a pensar de novo se não vivemos dentro de uma grande matriz, se tudo o que vemos não são somente sonhos, se estamos dopados com Soma e que a qualquer hora poderemos acordar...
Filmão...

A Origem
titulo original: (Inception)
lançamento: 2010 (EUA)
direção: Christopher Nolan
atores: Leonardo DiCaprio , Marion Cotillard , Joseph Gordon-Levitt , Ellen Page , Ken Watanabe
duração: 148 min
gênero: Ficção Científica

Sinopse: Em um mundo onde é possível entrar na mente humana, Cobb (Leonardo DiCaprio) está entre os melhores na arte de roubar segredos valiosos do inconsciente, durante o estado de sono. Além disto ele é um fugitivo, pois está impedido de retornar aos Estados Unidos devido à morte de Mal (Marion Cotillard). Desesperado para rever seus filhos, Cobb aceita a ousada missão proposta por Saito (Ken Watanabe), um empresário japonês: entrar na mente de Richard Fischer (Cillian Murphy), o herdeiro de um império econômico, e plantar a ideia de desmembrá-lo. Para realizar este feito ele conta com a ajuda do parceiro Arthur (Joseph Gordon-Levitt), a inexperiente arquiteta de sonhos Ariadne (Ellen Page) e Eames (Tom Hardy), que consegue se disfarçar de forma precisa no mundo dos sonhos.

Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/a-origem/

Asas do Desejo

Acabei de ver o filme Asas do Desejo do cineasta Win Wenders, um filme fabuloso, daqueles bem leves e bem densos, um dos filmes mais lindos que já vi na vida. Ele se passa na Berlim antes da queda do muro, o filme começa em preto e branco e torna-se colorido quando anjo cai na terra para ficar com sua amada. Só que enredo do filme não é tão simples assim, a parte simples ficou para o Cidade dos Anjos, que foi inspirado nesse filme. Ele trata do tema solidão, de uma Berlim vazia que, por onde você corre, você chega no muro, ele tem diálogos poéticos, ele abrange o pensamentos das pessoas, seus sentimentos mais íntimos, sua solidão, seu vazio, seus rostos sem cor, sem luz. Essa questão dos anjos é completamente pertinente, fiquei aqui pensando se anjos existem, já que sou muito cética, e no filme isso é tão sutil... se eles existem o meu poderia cair para virar meu amor né?? rs Mas, voltando a falar sério, ele aborda vários pensamentos que temos dentro de nós,  mostra todo o vazio que a modernidade nos trouxe, toda a vida errante que vem junto com ela, a questão do individualismo, mas também todos os pequenos gestos que estão presentes nos nossos dias e que nunca percebemos, como o quanto é bom sentir o cheiro da manhã, como é bom tomar uma xícara de café, fumar um cigarro, apreciar uma paisagem, tocar alguém, ouvir uma música e deixar que ela nos toque.
O legal é que o muro norteia dois lados, o físico e o espiritual, tudo se dá em volta dele, há até uma passagem em que um anjo diz que todos os lugares levam ao muro. O nome do filme original do filme seria "O céu sobre Berlim", acredito que teria mais a ver com o filme do que Asas do Desejo, deixaria o filme mais poético ainda, não que o nome Asas não tenha, afinal os anjos vivem desejosos de terem uma vida humana, de sentir, de comer, de mentir, de serem visto...Mas, como o filme é Berlim pura, esse nome teria dado uma dimensão maior do momento ali vivido.


Asas Do Desejo

titulo original: (Der Himmel ünder Berlin)
lançamento: 1987 (Alemanha)
direção: Wim Wenders
atores: Bruno Ganz , Solveig Dommartin , Otto Sander , Curt Bois , Peter Falk
duração: 130 min
gênero: Drama

Sinopse: Na Berlim pós-guerra, dois anjos perabulam pela cidade. Invisíveis aos mortais, eles lêem seus pensamentos e tentam confortar a solidão e a depressão das almas que encontram. Entretanto, um dos anjos, ao se apaixonar por uma trapezista, deseja se tornar um humano para experimentar as alegrias de cada dia. 

Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/asas-do-desejo/

Fernando Pessoa

Um poeta daqueles que nos deixa em êxtase. Um daqueles que falam por nós todos os sentimentos que temos e mais um pouco. Ontem fui ao Museu da Língua Portuguesa ver a exposição sobre esse grande e perfeito poeta português. Pessoa é um e todos ao mesmo tempo, ele e seus heterônimos completam um ser que é mais do que um ser, mais do que uma alma... Seus heterônimos nos mostra o quanto podemos ser complexos, o quanto de nós temos dentro de nós mesmos. Cada um com sua forma, sua singularidade, assim como todos somos, vários dentro de um corpo só, hoje somos vermelhos, amanhã amarelos, depois de amanhã azuis...
A exposição está maravilhosa, aliada a tecnologia, ela nos deixa interagir e brincar um pouco com a poesia, a nos encantar mais do que ficamos normalmente. Confesso que essa foi a exposição mais legal que vi lá no Museu da Língua, que, inclusive, sempre tem exposições maravilhosas, que nos deixa sempre grávidos dos autores que vamos lá visitar. 

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa em 1888 e faleceu na mesma cidade em 1935, poeta moderno, um dos maiores poetas de língua portuguesa, está do lado de Camões entre os mais mais de todos os tempos, há quem diga que ele supera toda a obra de Camões... Eu sou suspeita, como todos sabem eu gosto muito mais da literatura moderna, logo, Pessoa está no topo de minha vida, assim como Bandeira, Drummond... 
A maior parte de suas obras foram escritas em inglês, já que ele passou boa parte de sua vida na África do Sul, onde aprendeu a língua. Também traduziu algumas obras do inglês para o português, como alguns poemas de Poe. Seu maior legado foram seus heterônimos, cada um com suas próprias características, com datas de nascimentos e morte, como se fossem pessoas diferentes. Pode soar estranho, mas quem nunca achou que ser várias pessoas ao mesmo tempo?? Eu vivo nesse dilema. Já ouvi cada boato besta sobre o Pessoa, desde o caso do coitado ser esquizofrênico, por isso ele ser vários em uma pessoa só, o que nem seria tão do mal, porque os esquizofrênicos são extremamente inteligentes, e também que ele receberia espíritos e suas poesias seriam psicografias  de almas perdidas no além. Enfim, cada um acredita naquilo que melhor lhe convém. Talvez esse boato tenha surgido por conta de sua amizade com o ocultista Aleister Crowley, que também influenciou Raul Seixas e Jimi Page, autor de "O Livro da Lei", onde ele aborda a magia e a cabala, sendo sua interpretação sendo diferente para cada pessoa, pois, cada um tem sua vivência e cada um pode ler o livro da forma que quiser. Sobre esse livro existem diversas divagações, uma vez eu cheguei a ouvir que, quem lesse a última página desse livro estaria fazendo um pacto com Satanás, umas coisas bem bizarras... Afinal, tudo que não segue a lei estabelecida nesse mundo é obra do demo né? Mas, no fim, esses comentários são o receptáculo para que as pessoas possam procurar as obras e lerem um pouco mais.
Lá eu li uma poesia dele  que ainda não conhecia e que no mesmo instante me reconheci nela. É do heterônimo Álvaro de Campos, intitulada como "Passagem das Horas", linda, terna e turbulenta como a minha pessoa... Ela segue abaixo, na integra.


Passagem das Horas - Álvaro de Campos

Trago dentro do meu coração,  
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,  
Todos os lugares onde estive,  
Todos os portos a que cheguei,  
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,  
Ou de tombadilhos, sonhando,  
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.  
A entrada de Singapura, manhã subindo, cor verde,  
O coral das Maldivas em passagem cálida,  
Macau à uma hora da noite... Acordo de repente  
Yat-iô--ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô-ô ... Ghi-...  
E aquilo soa-me do fundo de uma outra realidade  
A estatura norte-africana quase de Zanzibar ao sol  
Dar-es-Salaam (a saída é difícil)...  
Majunga, Nossi-Bé, verduras de Madagascar...  
Tempestades em torno ao Guardaful...  
E o Cabo da Boa Esperança nítido ao sol da madrugada...  
E a Cidade do Cabo com a Montanha da Mesa ao fundo...  
Viajei por mais terras do que aquelas em que toquei...  
Vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos...  
Experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti,  
Porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir  
E a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz.  
A certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me,  
Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge,  
Desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso,  
Desta turbulência tranqüila de sensações desencontradas,  
Desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada,  
Deste desassossego no fundo de todos os cálices,  
Desta angústia no fundo de todos os prazeres,  
Desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas,  
Deste jogo de cartas fastiento entre o Cabo da Boa Esperança e as Canárias.  
Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.  
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei  
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,  
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque  
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,  
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.  
Seja o que for, era melhor não ter nascido,  
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,  
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,  
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair  
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,  
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,  
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,  
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,  
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.  
Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,  
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...  
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,  
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...  
Que há de ser de mim?  Que há de ser de mim?  
  
Correram o bobo a chicote do palácio, sem razão,  
Fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra.  
Bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos.  
Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...  
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...  
Só estou bem quando ouço música, e nem então.  
Jardins do século dezoito antes de 89,  
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?  
  
 Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,  
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.  
  
Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.  
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.  
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.  
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.  
Minha quinta na província,  
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.  
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,  
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,  
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...  
  
 Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.  
Só humanitariamente é que se pode viver.  
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,  
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.  
Só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim!  
  
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,  
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.  
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,  
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.  
Amei e odiei como toda gente,  
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,  
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.  
  
Vem, ó noite, e apaga-me, vem e afoga-me em ti.  
Ó carinhosa do Além, senhora do luto infinito,  
Mágoa externa na Terra, choro silencioso do Mundo.  
Mãe suave e antiga das emoções sem gesto,  
Irmã mais velha, virgem e triste, das idéias sem nexo,  
Noiva esperando sempre os nossos propósitos incompletos,  
A direção constantemente abandonada do nosso destino,  
A nossa incerteza pagã sem alegria,  
A nossa fraqueza cristã sem fé,  
O nosso budismo inerte, sem amor pelas coisas nem êxtases,  
A nossa febre, a nossa palidez, a nossa impaciência de fracos,  
A nossa vida, o mãe, a nossa perdida vida...  
  
Não sei sentir, não sei ser humano, conviver  
De dentro da alma triste com os homens meus irmãos na terra.  
Não sei ser útil mesmo sentindo, ser prático, ser quotidiano, nítido,  
Ter um lugar na vida, ter um destino entre os homens,  
Ter uma obra, uma força, uma vontade, uma horta,  
Unia razão para descansar, uma necessidade de me distrair,  
Uma cousa vinda diretamente da natureza para mim.  
  
Por isso sê para mim materna, ó noite tranqüila...  
Tu, que tiras o mundo ao mundo, tu que és a paz,  
Tu que não existes, que és só a ausência da luz,  
Tu que não és uma coisa, rim lugar, uma essência, uma vida,  
Penélope da teia, amanhã desfeita, da tua escuridão,  
Circe irreal dos febris, dos angustiados sem causa,  
Vem para mim, ó noite, estende para mim as mãos,  
E sê frescor e alívio, o noite, sobre a minha fronte...  
'Tu, cuja vinda é tão suave que parece um afastamento,  
Cujo fluxo e refluxo de treva, quando a lua bafeja,  
Tem ondas de carinho morto, frio de mares de sonho,  
Brisas de paisagens supostas para a nossa angústia excessiva...  
Tu, palidamente, tu, flébil, tu, liquidamente,  
Aroma de morte entre flores, hálito de febre sobre margens,  
Tu, rainha, tu, castelã, tu, dona pálida, vem...  
  
Sentir tudo de todas as maneiras,  
Viver tudo de todos os lados,  
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,  
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos  
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.  
  
Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,  
Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,  
Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,  
Seja uma flor ou uma idéia abstrata,  
Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.  
E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.  
São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,  
E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,  
Porque ser inferior é diferente de ser superior,  
E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.  
Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,  
E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,  
E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,  
E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.  
Sim, como sou rei absoluto na minha simpatia,  
Basta que ela exista para que tenha razão de ser.  
Estreito ao meu peito arfante, num abraço comovido,  
(No mesmo abraço comovido)  
O homem que dá a camisa ao pobre que desconhece,  
O soldado que morre pela pátria sem saber o que é pátria,  
E o matricida, o fratricida, o incestuoso, o violador de crianças,  
O ladrão de estradas, o salteador dos mares,  
O gatuno de carteiras, a sombra que espera nas vielas —  
Todos são a minha amante predileta pelo menos um momento na vida.  
  
Beijo na boca todas as prostitutas,  
Beijo sobre os olhos todos os souteneurs,  
A minha passividade jaz aos pés de todos os assassinos  
E a minha capa à espanhola esconde a retirada a todos os ladrões.  
Tudo é a razão de ser da minha vida.  
  
Cometi todos os crimes,  
Vivi dentro de todos os crimes  
(Eu próprio fui, não um nem o outro no vicio,  
Mas o próprio vício-pessoa praticado entre eles,  
E dessas são as horas mais arco-de-triunfo da minha vida).  
  
Multipliquei-me, para me sentir,  
Para me sentir, precisei sentir tudo,  
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,  
Despi-me, entreguei-rne,  
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente.  
  
Os braços de todos os atletas apertaram-me subitamente feminino,  
E eu só de pensar nisso desmaiei entre músculos supostos.  
  
Foram dados na minha boca os beijos de todos os encontros,  
Acenaram no meu coração os lenços de todas as despedidas,  
Todos os chamamentos obscenos de gesto e olhares  
Batem-me em cheio em todo o corpo com sede nos centros sexuais.  
Fui todos os ascetas, todos os postos-de-parte, todos os como que esquecidos,  
E todos os pederastas - absolutamente todos (não faltou nenhum).  
Rendez-vous a vermelho e negro no fundo-inferno da minha alma!  
  
(Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te,  
Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!)  
Mary, com quem eu lia Burns em dias tristes como sentir-se viver,  
Mary, mal tu sabes quantos casais honestos, quantas famílias felizes,  
Viveram em ti os meus olhos e o meu braço cingido e a minha consciência incerta,  
A sua vida pacata, as suas casas suburbanas com jardim,  
Os seus half-holidays inesperados...  
Mary, eu sou infeliz...  
Freddie, eu sou infeliz...  
Oh, vós todos, todos vós, casuais, demorados,  
Quantas vezes tereis pensado em pensar em mim, sem que o fósseis,  
Ah, quão pouco eu fui no que sois, quão pouco, quão pouco —  
Sim, e o que tenho eu sido, o meu subjetivo universo,  
Ó meu sol, meu luar, minhas estrelas, meu momento,  
Ó parte externa de mim perdida em labirintos de Deus!  
  
Passa tudo, todas as coisas num desfile por mim dentro,  
E todas as cidades do mundo, rumorejam-se dentro de mim ...  
Meu coração tribunal, meu coração mercado,  
Meu coração sala da Bolsa, meu coração balcão de Banco,  
Meu coração rendez-vous de toda a humanidade,  
Meu coração banco de jardim público, hospedaria,  
Estalagem, calabouço número qualquer cousa  
(Aqui estuvo el Manolo en vísperas de ir al patíbulo)  
Meu coração clube, sala, platéia, capacho, guichet, portaló,  
Ponte, cancela, excursão, marcha, viagem, leilão, feira, arraial,  
Meu coração postigo,  
Meu coração encomenda,  
Meu coração carta, bagagem, satisfação, entrega,  
Meu coração a margem, o lirrite, a súmula, o índice,  
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, bazar o meu coração.  
  
Todos os amantes beijaram-se na minh'alma,  
Todos os vadios dormiram um momento em cima de mim,  
Todos os desprezados encostaram-se um momento ao meu ombro,  
Atravessaram a rua, ao meu braço, todos os velhos e os doentes,  
E houve um segredo que me disseram todos os assassinos.  
  
(Aquela cujo sorriso sugere a paz que eu não tenho,  
Em cujo baixar-de-olhos há uma paisagem da Holanda,  
Com as cabeças femininas coiffées de lin  
E todo o esforço quotidiano de um povo pacífico e limpo...  
Aquela que é o anel deixado em cima da cômoda,  
E a fita entalada com o fechar da gaveta,  
Fita cor-de-rosa, não gosto da cor mas da fita entalada,  
Assim como não gosto da vida, mas gosto de senti-la ...  
Dormir como um cão corrido no caminho, ao sol,  
Definitivamente para todo o resto do Universo,  
E que os carros me passem por cima.)  
Fui para a cama com todos os sentimentos,  
Fui souteneur de todas ás emoções,  
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,  
Troquei olhares com todos os motivos de agir,  
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,  
Febre imensa das horas!  
Angústia da forja das emoções!  
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,  
A cadela a uivar de noite,  
O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,  
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,  
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,  
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,  
Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,  
Orgia intelectual de sentir a vida!  
  
Obter tudo por suficiência divina —  
As vésperas, os consentimentos, os avisos,  
As cousas belas da vida —  
O talento, a virtude, a impunidade,  
A tendência para acompanhar os outros a casa,  
A situação de passageiro,  
A conveniência em embarcar já para ter lugar,  
E falta sempre uma coisa, um copo, uma brisa, urna frase,  
E a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.  
Poder rir, rir, rir despejadamente,  
Rir como um copo entornado,  
Absolutamente doido só por sentir,  
Absolutamente roto por me roçar contra as coisas,  
Ferido na boca por morder coisas,  
Com as unhas em sangue por me agarrar a coisas,  
E depois dêem-me a cela que quiserem que eu me lembrarei da vida.  
Sentir tudo de todas as maneiras,  
Ter todas as opiniões,  
Ser sincero contradizendo-se a cada minuto,  
Desagradar a si próprio pela plena liberalidade de espírito,  
E amar as coisas como Deus.  
Eu, que sou mais irmão de uma árvore que de um operário,  
Eu, que sinto mais a dor suposta do mar ao bater na praia  
Que a dor real das crianças em quem batem  
(Ah, como isto deve ser falso, pobres crianças em quem batem —  
E por que é que as minhas sensações se revezam tão depressa?)  
Eu, enfim, que sou um diálogo continuo,  
Um falar-alto incompreensível, alta-noite na torre,  
Quando os sinos oscilam vagamente sem que mão lhes toque  
E faz pena saber que há vida que viver amanhã.  
Eu, enfim, literalmente eu,  
E eu metaforicamente também,  
Eu, o poeta sensacionista, enviado do Acaso  
As leis irrepreensíveis da Vida,  
Eu, o fumador de cigarros por profissão adequada,  
O indivíduo que fuma ópio, que toma absinto, mas que, enfim,  
Prefere pensar em fumar ópio a fumá-lo  
E acha mais seu olhar para o absinto a beber que bebê-lo...  
Eu, este degenerado superior sem arquivos na alma,  
Sem personalidade com valor declarado,  
Eu, o investigador solene das coisas fúteis,  
Que era capaz de ir viver na Sibéria só por embirrar com isso,  
E que acho que não faz mal não ligar importâricia à pátria  
Porqtie não tenho raiz, como uma árvore, e portanto não tenho raiz  
Eu, que tantas vezes me sinto tão real como uma metáfora,  
Como uma frase escrita por um doente no livroda rapariga que encontrou no terraço,  
Ou uma partida de xadrez no convés dum transatlântico,  
Eu, a ama que empurra os perambulators em todos os jardins públicos,  
Eu, o policia que a olha, parado para trás na álea,  
Eu, a criança no carro, que acena à sua inconsciência lúcida com um coral com guizos.  
Eu, a paisagem por detrás disto tudo, a paz citadina  
Coada através das árvores do jardim público,  
Eu, o que os espera a todos em casa,  
Eu, o que eles encontram na rua,  
Eu, o que eles não sabem de si próprios,  
Eu, aquela coisa em que estás pensando e te marca esse sorriso,  
Eu, o contraditório, o fictício, o aranzel, a espuma,  
O cartaz posto agora, as ancas da francesa, o olhar do padre,  
O largo onde se encontram as suas ruas e os chauffeurs dormem contra os carros,  
A cicatriz do sargento mal encarado,  
O sebo na gola do explicador doente que volta para casa,  
A chávena que era por onde o pequenito que morreu bebia sempre,  
E tem uma falha na asa (e tudo isto cabe num coração de mãe e enche-o)...  
Eu, o ditado de francês da pequenita que mexe nas ligas,  
Eu, os pés que se tocam por baixo do bridge sob o lustre,  
Eu, a carta escondida, o calor do lenço, a sacada com a janela entreaberta,  
O portão de serviço onde a criada fala com os desejos do primo,  
O sacana do José que prometeu vir e não veio  
E a gente tinha uma partida para lhe fazer...  
Eu, tudo isto, e além disto o resto do mundo...  
Tanta coisa, as portas que se abrem, e a razão por que elas se abrem,  
E as coisas que já fizeram as mãos que abrem as portas...  
Eu, a infelicidade-nata de todas as expressões,  
A impossibilidade de exprimir todos os sentimentos,  
Sem que haja uma lápida no cemitério para o irmão de ttido isto,  
E o que parece não querer dizer nada sempre quer dizer qualquer cousa...  
Sim, eu, o engenheiro naval que sou supersticioso como uma camponesa madrinha,  
E uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mim,  
Que levo às vezes três horas a vestir-me e nem por isso acho isso natural,  
Mas acho-o metafísico e se me batem à porta zango-me,  
Não tanto por me interromperem a gravata como por ficar sabendo que há a vida...  
Sim, enfim, eu o destinatário das cartas lacradas,  
O baú das iniciais gastas,  
A entonação das vozes que nunca ouviremos mais -  
Deus guarda isso tudo no Mistério, e às vezes sentimo-lo  
E a vida pesa de repente e faz muito frio mais perto que o corpo.  
A Brígida prima da minha tia,  
O general em que elas falavam - general quando elas eram pequenas,  
E a vida era guerra civil a todas as esquinas...  
Vive le mélodrame oú Margot a pleuré!  
Caem as folhas secas no chão irregularmente,  
Mas o fato é que sempre é outono no outono,  
E o inverno vem depois fatalmente,  
há só um caminho para a vida, que é a vida...  
Esse velho insignificante, mas que ainda conheceu os românticos,  
Esse opúsculo político do tempo das revoluções constitucionais,  
E a dor que tudo isso deixa, sem que se saiba a razão  
Nem haja para chorar tudo mais razão que senti-lo.  
Viro todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,  
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.  
Não me subordino senão por atavisnio,  
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.  
Das serrasses de todos os cafés de todas as cidades  
Acessíveis à imaginação  
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,  
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,  
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.  
No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,  
Vou ao lado dela sem ela saber.  
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,  
Mas antes de o encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.  
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me,  
Não há modo de eu não estar em toda a parte.  
O meu privilégio é tudo  
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).  
Assisto a tudo e definitivamente.  
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,  
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira,  
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso,  
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinqüenta  
Que não seja para mim por uma galantaria deposta.  
Fui educado pela Imaginação,  
Viajei pela mão dela sempre,  
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,  
E todos os dias têm essa janela por diante,  
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.  
Cavalgada explosiva, explodida, como uma bomba que rebenta,  
Cavalgada rebentando para todos os lados ao mesmo tempo,  
Cavalgada por cima do espaço, salto por cima do tempo,  
Galga, cavalo eléctron-íon, sistema solar resumido  
Por dentro da ação dos êmbolos, por fora do giro dos volantes.  
Dentro dos êmbolos, tornado velocidade abstrata e louca,  
Ajo a ferro e velocidade, vaivém, loucura, raiva contida,  
Atado ao rasto de todos os volantes giro assombrosas horas,  
E todo o universo range, estraleja e estropia-se em mim.  
Ho-ho-ho-ho-ho!...  
Cada vez mais depressa, cada vez mais com o espírito adiante do corpo  
Adiante da própria idéia veloz do corpo projetado,  
Com o espírito atrás adiante do corpo, sombra, chispa,  
He-la-ho-ho ... Helahoho ...  
Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo...  
A seiva da seiva das árvores é a mesma energia que mexe  
As rodas da locomotiva, as rodas do elétrico, os volantes dos Diesel,  
E um carro puxado a mulas ou a gasolina é puxado pela mesma coisa.  
Raiva panteísta de sentir em mim formidandamente,  
Com todos os meus sentidos em ebulição, com todos os meus poros em fumo,  
Que tudo é uma só velocidade, uma só energia, uma só divina linha  
De si para si, parada a ciciar violências de velocidade louca...  
Ho ----  
Ave, salve, viva a unidade veloz de tudo!  
Ave, salve, viva a igualdade de tudo em seta!  
Ave, salve, viva a grande máquina universo!  
Ave, que sois o mesmo, árvores, máquinas, leis!  
Ave, que sois o mesmo, vermes, êmbolos, idéias abstratas,  
A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna,  
A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso,  
O resto, o estático resto que fica nos olhos que param,  
Mas não nos meus nervos motor de explosão a óleos pesados ou leves,  
Não nos meus nervos todas as máquinas, todos os sistemas de engrenagem,  
Nos meus nervos locomotiva, carro elétrico, automóvel, debulhadora a vapor  
Nos meus nervos máquina marítima, Diesel, semi-Diesel,  
Campbell, Nos meus nervos instalação absoluta a vapor, a gás, a óleo e a eletricidade,  
Máquina universal movida por correias de todos os momentos!  
Todas as madrugadas são a madrugada e a vida.  
Todas as auroras raiam no mesmo lugar:  
Infinito...  
Todas as alegrias de ave vêm da mesma garganta,  
Todos os estremecimentos de folhas são da mesma árvore,  
E todos os que se levantam cedo para ir trabalhar  
Vão da mesma casa para a mesma fábrica por o mesmo caminho...  
Rola, bola grande, formigueiro de consciências, terra,  
Rola, auroreada, entardecida, a prumo sob sóis, noturna,  
Rola no espaço abstrato, na noite mal iluminada realmente  
Rola ...  
Sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra,  
E todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim,  
Centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros  
Bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio,  
Põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo,  
Faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato,  
Para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas,  
A Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo ...  
Ah, não estar parado nem a andar,  
Não estar deitado nem de pé,  
Nem acordado nem a dormir,  
Nem aqui nem noutro ponto qualquer,  
Resol,,,er a equação desta inquietação prolixa,  
Saber onde estar para poder estar em toda a parte,  
Saber onde deitar-me para estar passeando por todas as ruas ...  
  
Ho-ho-ho-ho-ho-ho-ho  
Cavalgada alada de mim por cima de todas as coisas,  
Cavalgada estalada de mim por baixo de todas as coisas,  
Cavalgada alada e estalada de mim por causa de todas as coisas ...  
Hup-la por cima das árvores,  hup-la por baixo dos tanques,  
Hup-la contra as paredes, hup-la raspando nos troncos,  
Hup-la no ar, hup-la no vento, hup-la, hup-la nas praias,  
Numa velocidade crescente, insistente, violenta,  
Hup-la hup-la hup-la hup-la ...  
Cavalgada panteísta de mim por dentro de todas as coisas,  
Cavalgada energética por dentro de todas as energias,  
Cavalgada de mim por dentro do carvão que se queima, da lâmpada que arde,  
Clarim claro da manhã ao fundo  
Do semicírculo frio do horizonte,  
Tênue clarim longínquo como bandeiras incertas  
Desfraldadas para além de onde as cores são visíveis ...  
Clarim trêmulo, poeira parada, onde a noite cessa,  
Poeira de ouro parada no fundo da visibilidade  ...  
Carro que chia limpidamente, vapor que apita,  
Guindaste que começa a girar no meu ouvido,  
Tosse seca, nova do que sai de casa,  
Leve arrepio matutino na alegria de viver,  
Gargalhada súbita velada pela bruma exterior não sei como,  
Costureira fadada para pior que a manhã que sente,  
Operário tísico desfeito para feliz nesta hora  
Inevitavelmente vital,  
Em que o relevo das coisas é suave, certo e simpático,  
Em que os muros são frescos ao contacto da mão, e as casas  
Abrem aqu; e ali os olhos cortinados a branco...  
Toda a madrugada é uma colina que oscila,  
...................................................................... e caminha tudo  
  
Para a hora cheia de luz em que as lojas baixam as pálpebras  
E rumor tráfego carroça comboio eu sinto sol estruge  
  
Vertigem do meio-dia emoldurada a vertigens —  
Sol dos vértices e nos... da minha visão estriada,  
Do rodopio parado da minha retentiva seca,  
Do abrumado clarão fixo da minha consciência de viver.  
  
Rumor tráfego carroça comboio carros eu sinto sol rua,  
Aros caixotes trolley loja rua i,itrines saia olhos  
Rapidamente calhas carroças caixotes rua atravessar rua  
Passeio lojistas "perdão" rua  
Rua a passear por mim a passear pela rua por mim  
Tudo espelhos as lojas de cá dentro das lojas de lá  
A velocidade dos carros ao contrário nos espelhos oblíquos das montras,  
O chão no ar o sol por baixo dos pés rua regas flores no cesto rua  
O meu passado rua estremece camion rua não me recordo rua  
  
Eu de cabeça pra baixo no centro da minha consciência de mim  
Rua sem poder encontrar uma sensação só de cada vez rua  
Rua pra trás e pra diante debaixo dos meus pés  
Rua em X em Y em Z por dentro dos meus braços  
Rua pelo meu monóculo em círculos de cinematógrafo pequeno,  
Caleidoscópio em curvas iriadas nítidas rua.  
Bebedeira da rua e de sentir ver ouvir tudo ao mesmo tempo.  
Bater das fontes de estar vindo para cá ao mesmo tempo que vou para lá.  
Comboio parte-te de encontro ao resguardo da linha de desvio!  
Vapor navega direito ao cais e racha-te contra ele!  
Automóvel guiado pela loucura de todo o universo precipita-te  
Por todos os precipícios abaixo  
E choca-te, trz!, esfrangalha-te no fundo do meu coração!  
À moi, todos os objetos projéteis!  
À moi, todos os objetos direções!  
À moi, todos os objetos invisíveis de velozes!  
Batam-me, trespassem-me, ultrapassem-me!  
Sou eu que me bato, que me trespasso, que me ultrapasso!  
A raiva de todos os ímpetos fecha em círculo-mim!  
  
Hela-hoho comboio, automóvel, aeroplano minhas ânsias,  
Velocidade entra por todas as idéias dentro,  
Choca de encontro a todos os sonhos e parte-os,  
Chamusca todos os ideais humanitários e úteis,  
Atropela todos os sentimentos normais, decentes, concordantes,  
Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado  
Os corpos de todas as filosofias, os tropos de todos os poemas,  
Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstrato nos ares,  
Senhor supremo da hora européia, metálico a cio.  
Vamos, que a cavalgada não tenha fim nem em Deus!  
...............................................................  
...............................................................  
Dói-me a imaginação não sei como, mas é ela que dói,  
Dec4ina dentro de mim o sol no alto do céu.  
Começa a tender a entardecer no azul e nos meus nervos.  
Vamos ó cavalgada, quem mais me consegues tornar?  
Eu que, veloz, voraz, comilão da energia abstrata,  
Queria comer, beber, esfolar e arranhar o mundo,  
Eu, que só me contentaria com calcar o universo aos pés,  
Calcar, calcar, calcar até não sentir.  
Eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis,  
Que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.  
Cavalgada desmantelada por cima de todos os cimos,  
Cavalgada desarticulada por baixo de todos os poços,  
Cavalgada vôo, cavalgada seta, cavalgada pensamento-relâmpago,  
Cavalgada eu, cavalgada eu, cavalgada o universo — eu.  
Helahoho-o-o-o-o-o-o-o ...  
Meu ser elástico, mola, agulha, trepidação ...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

"I just want someone to say to me, I'll always be there when you wake." B.M.

domingo, 22 de agosto de 2010

Projeto Cine Viela

Acabei de receber o email do meu amigo Jeremia, que na verdade se chama Thiago Beleza, resolveu levar a cabo um projeto que ele vem falando há algum tempo, de bolar algo para levar algo diferente para a periferia onde moramos... Agora ele trabalha numa ong, desculpe-me mas não recordo o nome dela agora e tem amigos que tem projetos bacanas por essa cidade doida de meu Deus, pena que esses amigos moram lá do outro lado da cidade, mas, ao que parece estarão por aqui para ajudar nessa nova empreitada que já deu mais do que certo... Com certeza estarei lá no dia marcado dando todo apoio e levando quantas pessoas quiserem ir comigo...

sábado, 21 de agosto de 2010

Quando o navio finalmente alcança a terra...

E o mastro da nossa bandeira se enterrar no chão, eu vou poder pegar em sua mão, falar de coisas que eu não disse ainda não. Coisas do coração...

Há 21 anos atrás, perdiamos nosso querido amado e odiado Raul Seixas. Amado por mim, por várias pessoas que conheço e odiado também por várias pessoas que conheço, cada um por seus motivos, cada um por suas lembranças. Eu estou do lado dos amantes de Raul. Cresci ouvindo sua música, sua crítica, seus anseios, suas bebedeiras, suas mulherices, seus erros e também seus acertos. Claro que eu era uma criança quando ele morreu, mas meu pai tinha uma fita dele, que ele gravou dos discos do meu avô e ficavámos ouvindo loucamente durante a propaganda eleitoral, que antigamente durava cerca de 1 hora na tv, logo dava tempo de sobra para fazermos dezenas de coisas... Meus pais jogavam dominó ouvindo Raul Seixas e Luiz Gonzaga e eu ficava ali, pequenina dançando e cantando as canções.

Todos anos temos a famosa passeata do raul, que começa as 18 lá na frente do teatro municipal aqui em São Paulo e a passeata sobe, em meio as músicas no nosso querido até a praça da Sé, onde canta-se mais ainda, bebe-se mais ainda e temos a chance de rever alguns amigos, já que, nesse mundo mixirica, os povo roqueiro dessa cidade sempre se conhece e sempre se encontra. Esse ano não pude comparecer, tive alguns problemas de ordem familiar, estava aqui olhando o relógio e cheia de pesares, mas, ano que vem tem mais... Tá aí  um encontro que todo roqueiro deveria ir pelo menos uma vez na vida. Aliás, acredito que será uma coisa que irá se perder quando o último fã de Raul morrer... Às vezes acho que a música morreu, não temos mais os poetas de antes, o rock doido de antes... Por isso é bom celebrar, para lembrar que, pelo menos o que temos lá atrás nos serviu de algo. 

Raul nasceu na Bahia em 1945 e morreu em São Paulo em 1989. Ele viu muita coisa acontecer nesse país abençoado por Deus, viveu a ditadura, viveu a liberação sexual, o rock abrindo caminhos no nosso país, a desconstrução de muitas coisas e valores que se perderam. Teve sua época de acreditar em ovnis, o que lhe trouxe a amizade com Paulo Coelho, seu amor por Elvis, seus altos e seus baixos... Como todos nós...

Somos a resposta exata do que a gente perguntou, entregues num abraço que sufoca o próprio amor, cada um de nós é o resultado da união de duas mãos coladas numa mesma oração... Coisas do coração... Coisas do coração...

Ignoring U

Pitty

I am ignoring you
I will ignore you
I am ignoring you
I will ignore you
'Cause your heart is so
Full of this shit
And I will ignore you
Don't bring me your sorrows
Don't bring me your jealousy
Don't drown me in your mood
That kind of thing you do
'Cause I was not born to be
The princess up the tower
Oh, you can't keep me
Quiet and tied in this bloody cage
I am ignoring you
I will ignore you
I am ignoring you
I will ignore you
'Cause your heart is so
Full of this shit
And I will ignore you, you...
I am not waiting for
A prince on a white horse just to save me
I know I have to do by myself
And this time I will be free
I am ignoring you
I will ignore you
I am ignoring you
I will ignore you
'Cause your heart is so
Full of this shit
And I will ignore...
I will ignore...
I will ignore you
Ignoring you
Ignoring you

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Dia do Historiador

 Enfim, hoje é meu dia, dia do historiador, de todos aqueles doidos que escrevem, que relatam, que lecionam a melhor matéria de todos os tempos... Tá certo que também tem os profissionais mais chatos que acham que sabem da verdade absoluta, mas quem liga para isso??? heheheheh Parabens para mim e para todos os historiadores do mundoooooo...

Historiador

Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais confirmadas
nem desfeitas.

Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.

Carlos Drummond de Andrade, in 'A Paixão Medida'

Indios-Legiao Urbana

Estava com essa música na cabeça hoje... Tão atual... Tão Brasil... Pena que as pessoas não se interessam mais por uma boa música...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Ozzy Osbourne - Goodbye to Romance com legenda

Essa música ficou na minha cabeça o dia todo, quando fui ver a letra me dei conta de que ela tinha tudo a ver comigo no momento... Segue o clipe com tradução...

Andrea Doria

Legião Urbana

Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá
 
Às vezes parecia
Que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos
Tão certo...
Teríamos o mundo inteiro
E até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços
De vidro...
Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir...
Não queria te ver assim
Quero a tua força
Como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada...
Às vezes parecia
Que era só improvisar
E o mundo então seria
Um livro aberto...
Até chegar o dia
Em que tentamos ter demais
Vendendo fácil
O que não tinha preço...
Eu sei é tudo sem sentido
Quero ter alguém
Com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse
Contra mim...
Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada
Que eu segui
E com a minha própria lei...
Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também...


Essa música diz um pouco do que estou sentindo hoje...

domingo, 15 de agosto de 2010

Los Hermanos - Último Romance


O vídeo foi feito em cima do filme Brilho Eterno de uma mente sem lembranças... Amo tanto a música quanto o filme...

Bienal do Livro 2010 - SP

Ontem compareci a famosa Bienal do Livro. Filas imensas, comida caríssima, sério mesmo, R$ 4 num pão de queijo sem vergonha, pequeno e frio, uma garrafinha de 300ml de água por R$ 3 é um absurdo. Portanto, quem pretende ir a Bienal, leve seu lanche na bolsa, porque, só com a comida, você deixará de comprar algum livro... Nas livrarias também encontramos inúmeras filas, mas nada de anormal se tratando de uma feira gigantesca de livros. Esse ano ela está cheia de surpresas... Vários livros de vampiros, vários lançamentos, até que fim começamos a ver tanta coisa sendo traduzida e lançada simultaneamente aqui no Brasil e no mundo. As palestras estão super legais, vi uma que me deixou feliz, foi com o Bejamin Moser e a Beth Goulart falando sobre a Clarice Lispector, já que Benjamin escreveu sua biografia mais conceituada e Beth que esteve em cartaz com uma peça sobre a vida de Clarice, aqui em São Paulo. Ao que parece ela retornará a se apresentar aqui em São Paulo para outra temporada, mas não consegui achar onde será... Assim que descobrir colocarei aqui no blog. Sinto muita falta de estudar literatura. Amo História, mas ela anda juntamente com a literatura em minha vida e ter visto essa palestra me deixou em êxtase, além de ser literatura, também era sobre Clarice Lispector, uma das minhas escritoras prediletas, daquelas que a gente lê e fica meses sentindo seus personagens, sua trama, seu enredo, sua sensibilidade. Não tem como não nos identificarmos com alguma personagem sua, com algum pensamento seu, ela parece ter falado sobre tudo o que sentimos dentro de nós e que não colocamos para fora, nossos pensamentos e desejos mais secretos. Acho que fiquei grávida de Clarice novamente, estou louca para ler algo que ainda não li, para reler alguns dos meus livros prediletos que ela escreveu... Sinto não poder ter tempo para ler tanta literatura quanto gosto... Fico pensando se vou viver tanto para ler tudo o que quero... Seria uma pena morrer e não ter lido as milhares de coisas que quero ler...
Na sexta quem estava lá presente foi a minha querida amada Lygia Fagundes Telles, também comentada na palestra de ontem, pois ela era amiga de Clarice. Tive a oportunidade de conhecer Lygia há 2 anos atrás numa palestra no centro cultural do Banco do Brasil sobre as mulheres na literatura e ela falou sobre Capitu, do romance machadiano "Dom Casmurro". Ela é maravilhosa, uma senhorinha linda e super sensível, daquelas que a gente quer ter em casa para dar boas risadas ao ouvir as histórias de sua vida. Uma pena não tê-la visto. Ela é outra escritora que mexe diretamente comigo, com o fundo da minha alma. 
O que me deixa triste em estar numa feira dessas é que a maioria das pessoas leitoras desse país tem alto poder aquisitivo, que são poucos os pobres que compram ou leem livros. Acho que foi por ver tanto esse tipo de situação que resolvi ser professora... O mínimo que eu fizer será de grande ajuda num país onde poucos tem muito e muitos não tem nada.
Não pude comprar muita coisa, estava sem dinheiro e sem cartão de crédito, mas tinham muitos livros em promoção lá, para quem quisesse assinar revistas está melhor ainda, várias revistas por preços baixos. Enfim, vale a pena ir na Bienal desse ano, tanto para conferir as palestras, quanto para fazer compras, agora para comer não, filas, comer sentado no chão, preços altos... Complicado...

sábado, 7 de agosto de 2010

Fim das férias...

Enfim, voltei para a vida real. Não consegui ver 30 filmes, vi 21, um recorde de todos os tempos na minha vida, já que mal tenho tempo para respirar. Fico triste por não ter visto os 30, mas feliz porque não consegui parar em casa durante as férias. Viajei, vi amigos que há muito tempo não via, conheci lugares novos, vi novas visões, discuti velhas visões, fiz uma caixa com as gordinhas tensas para abrirmos daqui milhares de anos, cantei, dancei, gritei, enfim, voltei a ser eu durante esse mês em que fiquei em casa... Segunda voltei a trabalhar e a estudar, já estou podre de cansada mas feliz, quero poder ficar mais com meus amigos, ler mais livros, ver mais filmes, para que eu não entre em colapso como foi no semestre passado. Enfim, vamos lá que mais uma etapa está para ser cumprida... hehehehehe

A culpa é do Fidel - Filme 21

Depois de milhares de anos sem escrever por aqui, venho colocar o final da minha saga de filmes... A bola da vez é A Culpa é do Fidel. Já faz um tempo que queria ver esse filme, ele fala sobre a reviravolta na vida de uma garotinha na década de 70 quando seus pais decidem virar comunistas depois de uma viagem até o Chile. A menininha, de certa forma, me lembrou a Stella, um filme que assisti há uns dias atrás. É engraçado ver como a cabeça das crianças assimilam as coisas de formas diferentes. Quando a babá dela disse que fugiu de Cuba e colocou a culpa no Fidel, para ela tudo era culpa do Fidel e dos barbudos vermelhos. Esse filme rende várias discussões. Vale muito a pena.

A Culpa é do Fidel
titulo original: (La Faute à Fidel)
lançamento: 2006 (França) (Itália)
direção: Julie Gavras
atores: Nina Kervel-Bey , Julie Depardieu , Stefano Accorsi , Benjamin Feuillet , Martine Chevallier
duração: 99 min
gênero: Drama

Sinopse: Anna de la Mesa (Nina Kervel-Bey) tem 9 anos, mora em Paris e leva uma vida regrada e tranqüila, dividida entre a escola católica e o entorno familiar. O ano é 1970 e a prisão e morte do seu tio espanhol, um comunista convicto, balança a família. Ao voltar de uma viagem ao Chile, logo após a eleição de Salvador Allende, os pais de Anna estão diferentes e a vida familiar muda por completo: engajamento político, mudança para um apartamento menor, trocas constantes de babás, visitas inesperadas de amigos estranhos e barbudos. Assustada com essa nova realidade, Anna resiste à sua maneira. Aos poucos, porém, realiza uma nova compreensão do mundo. 

Fonte: http://www.adorocinema.com/filmes/culpa-e-do-fidel/