Vivemos num mundo em que as coisas acontecem rápido demais, sempre é tudo ao mesmo tempo agora, tão ao mesmo tempo agora que as próprias pessoas ao mesmo tempo agora se tornam calmas perto do tempo. Estamos na sociedade do consumo, tudo é para ser consumido, desde nossos sentimentos até nossa própria comida. E muitas vezes ficamos perdidos no meio de tanta coisa. A Pitty tem uma música que ilustra bem isso, que é a Admirável Chip Novo, esse título é uma alusão ao livro de Huxley intitulado Admirável mundo novo que vem de mais longe ainda, essa frase encontra-se na peça A Tempestade de William Shakespeare. Enfim, na letra ela fala sobre termos olhos de robô, já que somos guiados por uma visão superior a nossa, nosso pensamento nunca está isento do que temos lá fora, seja qual pensamento for. Existe um provérbio árabe que diz que "o homem se parece mais com seu tempo do que com seus pais", e isso é condizente, às vezes achamos que somos descolados, que acreditamos no que é certo, mas também somos condicionados a pensar de determinada forma, é como se tudo fosse irreal. Eu sempre lembro do livro 1984, uma hora uma coisa é o certo, outra hora é outra coisa. Sempre tentamos ir pelo melhor caminho, mas penso se esse melhor caminho é o caminho certo. Às vezes acho que já estamos caminhando para a barbárie, algumas vezes eu quero sumir loucamente porque não vejo mais saída para nada e algumas vezes eu vejo a saída de forma completamente nítida. Estamos num tempo em que parece que não temos pelo que lutar, para que "tudo que tinha que ser chorado já foi chorado" como nos disse Raul Seixas, mas não, estamos num momento onde muitas coisas precisam ser feitas, pois estamos nos perdendo dentro de nós mesmos, no egocentrismo que nos impuseram. É estranho repensar tudo isso, ver como as coisas estão, ver que parece que tudo anda estático quando na verdade o buraco é bem mais embaixo. Essa coisa do "pense, fale, compre, beba, leia, vote" é transtornante. É de matar qualquer cerebelo perdido nesse mundo sem fim. Essa angústia eterna nos mata aos poucos, sempre temos um vazio que não sabemos como preencher. Alguns preenchem com o aĺcool, outros com outras drogas ilícitas, alguns com sexo, outros com melancolia, lembrei agora de um poema do Bandeira que é extremamente atual:
Não sei dançar
Manoel Bandeira, 1925Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz band.
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.
Mistura muito excelente de chás...
Esta foi açafata...
- Não, foi arrumadeira.
E está dançando com o ex-prefeito municipal:
Tão Brasil!
De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...
Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugelê banzai!
A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Para a crioula imoral,
No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros...
Mas ela não sabe...
Tão Brasil!
Ninguém se lembra de política...
Nem dos oito mil quilômetros de costa...
O algodão do Seridó é o melhor do mundo?... Que me importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!
(Petrópolis, 1925)
Assim, como o poeta, na maiorias da vezes eu tomo alegria, não consigo ficar muito tempo sentindo a mesma coisa, acho que é algum mecanismo de proteção existente dentro de mim... Não é fácil viver nos dias de hoje, principalmente quando somos pessoas mais sensíveis e sentimos as coisas de forma devastadora. podemos encontrar algo para nos preencher, podemos criar muros e grades dentro de nós para que as coisas não sejam tão pesadas, mas a sensação de que tudo está errado nunca vai embora. Daí eu venho com mais uma música da Pitty, "seja você mesmo que seja estranho", tento ser eu todos os dias e, por causa disso acabo sempre ficando a margem das coisas, porque mesmo quando tentamos deixar de vestir máscaras estamos vestindo-as... Afff...
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