"Sou como você me vê... Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania; depende de quando e como você me vê passar!" (Clarice Lispector)

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Copa

Qualquer pessoa que me conheça sabe que odeio copa do mundo, que não adianta, não vou gostar daquilo, é um cumulo ver todo mundo parado em frente a TV com a camiseta do Brasil cantando " Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor", quando, na verdade, nem sabe o que é o país, nem está interessado em saber ou, pior, não sabe de nada de tão alienado que está, o que torna a cena mais deprimente... Quando vejo as pessoas falando sobre copa, vendo os jogos, totalmente patriotas só me vem frases do tipo, isso é o ópio do povo, só pode. Ontem estava no Anhagabaú na hora do jogo, infelizmente, por conta da bendita copa eu tive que ir para a faculdade mais cedo, pois, se fosse após o jogo perderia minha prova, e, além de todas as peripércias do caminho, como nunca ter chegado tão rápido na Vila Mariana na minha vida, ter tomado um ônibus sentido centro tão vazio e ter visto o metrô que ia sentido Jabaquara tão cheio tão cedo, o que já foi cena para se fazer um estudo antropológico diante de tudo aquilo, lá no centro estava um caos. Algumas pessoas totalmente bebadas, falando e ofendendo todo mundo, com suas cornetas sendo tocadas nos ouvidos alheios (sim, eles tocavam as cornetas nos ouvidos de pessoas desconhecidas e que estavam lá para ver o jogo e se divertir um pouco), quando não, ao sair o primeiro gol, os mesmos bebados (que não eram poucos), começaram a jogar suas mochilas para o alto, machucando o povo que estava lá numa boa e ai de quem reclamasse, pois eles tirariam suas facas para esfaquear quem tivesse lá. O que era muito deprimente, já que tinham famílias inteiras lá com seus filhos pequenos somente para um bom momento de distração de torcida pela maravilhosa seleção brasileira. Sei que o texto está soando meio intolerante, mas é complicado ver determinados tipos de coisas e não se revoltar. Meu problema não é com a copa em si, mas pelo fato de ver o país parando (e eu tendo de pagar horas no meu trabalho porque saí mais cedo para ver o jogo), e tendo um monte de coisa por fazer, um monte de gente passando fome, um monte de gente sem vida, sem paz, sem afeto, um monte de crinaça perdidas nesse mundão vasto... É claro que temos que nos divertir, que temos que sorrir e ficarmos felizes com as coisas boas da vida, mas existem tantas outras coisas boas na vida sem ser o futebol, que só acontece de quatro em quatro anos, temos tantas coisas bacanas em nosso país já devastado, por que só a copa? Por que só o futebol?? Gostaria muito que tivessemos uma sociedade em que as pessoas soubessem porque só o futebol, porque tanto amor pela copa, porque tanta bebedeira e desrespeito pelo próximo, é complicado ser uma pessoa invisível num mundo tão grande e com tanta coisa por vir. Sei que não vou mudar o mundo, também nem tenho tanta pretensão (tá, eu tenho), mas acho que preciso fazer e dar o meu máximo, ontem me disseram que eu sou muito radical, que deveria deixar as coisas de lado e passar a ser como todo mundo, é, fiquei me imaginando numa situação dessas, me vi morta. O duro foi ter ouvido isso de uma pessoa que trata de vidas humanas todos os dias, que diz colocar a bandeira sou educador no peito quando na verdade é só mais um no meio da multidão. Eu posso ser estranha (e isso eu sei que sou), mas no dia em que deixar de acreditar que posso fazer algo, mesmo que pequeno e que o ser humano pode mudar, pode enterrar que já era faz tempo.

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